Tratamento

– por que as pessoas podem ser como elas são e eu não?

– porque você não está bem, tem tido reações exageradas e parece uma ameaça para os outros.

– e as outras pessoas não? Essas pessoas ao meu redor não são nocivas? Eu passei a minha vida contornando situações desconfortáveis, apaziguando pessoas que não faziam questão nenhuma de aliviar suas demonstrações de insatisfação, que não se importavam como estavam as bases de quem estava por perto e soltavam suas cargas e opiniões agressivas e ignorantes sem se importar com ninguém além delas próprias. Estas pessoas discursam bem ao seu favor, em geral se sobressaem nas discussões e convencem uma legião que muito provavelmente concordam com sua atitude e gostariam de fazer ou agem da mesma forma. Existe um nível extremo egoísmo sutil nesses diálogos que é legitimado pela maioria. É a subjetividade de um mundo que translouquece a coletividade. Estamos diante de um mar crescente de pessoas que se importam menos, que querem apenas “fazer o seu”, como se está fosse a saída para se sentir bem e dominar o seu lugar, ainda que ele invada os limites do outro. É uma evidência estranha que as guerras precisaram existir em todo mundo para que territórios e limites fossem criados. Povos com menos capacidade para a guerra, mas que ainda sim eram considerados perigosos foram oprimidos e suprimidos. O Brasil… este país foi dominado, tem suas raízes históricas ligadas a imposição das vontades de quem tem mais recursos e ainda acreditam atualmente que uma personalidade autoritária e que reproduz em suas falas a ignorância de quem acredita ter razão em impor sua visão e suas vontades. Eu passei a vida protegendo quinas para que estas pessoas que não olhavam ao redor não se machucassem. As minhas minhas esquinas, os meus limites, minhas opiniões, argumentos e pensamentos. Chorei na primeira vez que percebi que algumas pessoas eram capazes de perceber isso o que eu fazia, quando em uma dessas dinâmicas de grupo que a gente participa no início de relações com novas equipes, numa em que se tinha por objetivo falar com sinceridade as características que enxergam nas pessoas ali presentes, alguém bastante introspectivo disse que eu era incompreendida. Alguém que eu mal havia conversado até ali, nem ao menos lembro seu nome e o seu rosto. Eu tentei cuidar da humanidade, eu procurei o consenso em todas as minhas relações em vão. As pessoas tem essências muito diferentes é como sem nem fôssemos da mesma espécie muitas vezes. Os sentimentos que cada um possui, a diferença emocional… a consciência de unidade é praticamente inexistente na vida de alguns. Tentamos fazer fazer de grupos, sermos inseridos e buscamos o sentimento de pertencimento muitas vezes em meio a indivíduos cada vez mais individualizados. A evolução histórica da humanidade tem nos separado sempre mais, na grande maioria das vezes. Meu sentimento busca refúgio, busca um oásis, busca oxigênio, busca alimento… e parece estar morrendo, junto comigo. Meus cuidados nunca foram valorizados e no âmbito conjugal foi cada vez mais claro que quanto mais eu queria apaziguar menos eu deveria, em prol da sobrevivência. A sobrevivência do meu eu, sempre subjugado por homens que sentiam no direito de dominar meus sentimentos sem tomar nenhum cuidado com eles. Eu não fui capaz de me ver sucumbir por um motivo sem valor. Estar num relacionamento afetivo é estar num relacionamento afetivo, afinal. Afetuoso. Mas de que maneira eles resolveram me afetar? Entendi que eles se apoiaram em mim e que para mantermos uma história eu deveria sufocar meus anseios, dosar minhas demonstrações e fingir sentimentos que não me causavam apenas para que eles pudessem agir comigo minimamente gentis. Eu estou mais sensível do que nunca e agora isso se tornou o meu modo de ser diante de toda a sociedade. Ainda não consigo impor minhas opiniões a ninguém e provavelmente isso nunca irá acontecer, mas pelo menos reajo quando me forçam a aceitar o que não concordo. Existem infinitas palavras e sentimentos, além de diversas formas de fazer bom uso deles, só que resolveram ser rudes, impositivos e egoístas ao assumirem um papel e fazerem tão pouco dele. Meus alicerces estão fragilizados, alguma coisa ou outra da estrutura já veio abaixo, estou buscando ajuda pra reconstruir. Mas estou fazendo isso num mundo de areia onde a maioria não estará mais vivo quando tudo ruir. De fato, eu não posso ser como eu sou nesse contexto. Eu preciso mudar a minha essência de me importar se eu quiser sobreviver… ainda que sem estímulos e sem esperança de que a situação das pessoas ao meu redor melhore. Quantas vezes eu quis ir embora…

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