Ambulatório

É quinta, mas é praticamente segunda ou terça do ano novo pós-carnaval brasileiro.

Estou tentando sentir que tenho um corpo, pois há tempos os meus pensamentos assumiram o controle da minha vida.

Quando durmo, acordo sem os braços.
É como se ao dormir o meu ser inteiro se dedica a assumir o seu lado etéreo e eu vago por vidas que virão, já estão ou já foram. Não chego a uma conclusão, apenas acontece.

Nesse momento, na fila do ambulatório de saúde mental, observo do canto onde encontrei assento o pouco do raio de sol que esverdeia algumas plantas do lado de fora.

O tempo, por vezes, acompanha meu estado emocional. Não sei se chovo ou se faço sol. Fico apenas densa, numa paz inquieta de quem desmorona para dar de beber à vida.

Estou aérea, meus olhos concentrados.
Não estou enjoada como tem acontecido algumas vezes desde que comecei o tratamento…
Os sons não tem uma boa definição.

Escuto a recepcionista chamar “Matheus Inácio!” por duas vezes antes de entender que nome era aquele. Ninguém responde.

Minutos depois, um novo nome. Dessa vez me surpreendo: “Coceira no Cu!”
Esse, de fato, eu não escutei direito… Não precisaram chamar duas vezes, então a agilidade do outro me fez permanecer nessa minha cômica confusão auditiva.

A TV ligada logo à frente não ajuda em nada.

Minutos depois, “Matheus Inácio Martins”.

Acho que agora ele apareceu.

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