100 tabs (ou Sobre o Tempo)

Existe uma enorme diferença entre se sentir confortável e se sentir em casa.

Acho que a mudança é sutil, as pessoas estão se dando conta, mas sem perceber.

Em 2020 a maior mudança é sobre a nossa percepção de tempo.

Olhei pra luz lá fora há poucos minutos, sem sombra, nos últimos vestígios do sol no horário por volta das 17h30 da tarde desta terça feira, pela visão da nossa varanda diminuta que evidencia a nossa posição econômica no mundo.

As semanas tem passado como se fossem dias longos, preenchidos por períodos de descanso. E tem começado a me fazer refletir a respeito do quanto eu ou as condições sociais me permitiam (ou será que vão continuar tão imperativas depois de tudo isso?) me permitiam períodos de descanso ao longo de 24h.

Esta divisão entre “dias úteis” e “fins de semana” são tão obviamente absurdos do ponto de vista de para quem são destinados…

Entre os que possuem o direito ao legítimo descanso, “semana, fim de semana”.

Entre os que devem trabalhar para merecer o descanso, “dias úteis e dias improdutivos”.

Nunca falamos a respeito do subtexto desses conceitos no dia a dia. Sobre quem estabeleceu o quanto é justo um ser humano trabalhar. No cotidiano contemporâneo isso não mais importa.

Começamos a fundir realidades que antes eram muito desiguais… hoje falamos claramente que o ser humano precisa, por padrão, de pelo menos 8h de sono. Mas não se fala em descanso diário para além desse período.

Também não nos permite pensar na grande variedade de necessidades específicas e individuais de cada organismo.

Colocamos tudo dentro do “consenso médico” sobre a maioria… e a democratização de tudo o que fazemos…

Chegamos até aqui imaginando que a democracia seria o melhor modo de conseguir justiça… E eu sinto que chegamos em mais um daqueles momentos de transição histórica.

Na democracia em que vivemos, dentro de uma realidade de desigualdade social, temos a infelicidade da maioria ser fortemente ignorante, seja por questões econômicas que impactam na visão de mundo ou por arrogância mesmo, que é o tipo de ignorância de quem não sabe usufruir do seu “direito” ao egoísmo (ou privilégio?).

O egoísmo em si não é um mal. É uma dádiva poder sermos únicos. Contudo a natureza sempre nos cobra equilíbrio, a utopia eterna que nos move.

Ayn Rand romantizou o egoísmo pelo viés da faceta social útil e benéfica. Ela, porém, conhecia, com certeza, o outro lado. O lado do egoísmo exacerbado que fecha homens cheios de ganância em seus mundinhos endinheirados rejeitando possibilidades de sucesso diferentes daquilo que suportam, entendem ou acreditam.

Não permitimos que muitos alcancem seus potenciais por que estes se confundem no caminho da busca por alcançar padrões.

Os produtivos, os verdadeiros produtores, os criativos e inventivos, os que trazem novas maneiras de pensar e, assim, os que trazem também novas soluções para problemas antigos… Estes não funcionam bem com padrões, estes precisam ter espaço para viver caminhos alternativos para que, então, surjam para toda a sociedade novas alternativas…

Eu estava pensando agora tarde em como era a percepção de quanto tempo durava uma semana há 20 anos atrás… isso mudou. E… o quanto, ao caminharmos sob os mesmo caminhos durante anos, nos fez distrair da ideia de como o tempo foi se transformando…

E agora, com essa crise a respeito do tempo que precisamos esperar para sair de casa, tem ficado mais claro que nada será como antes…

O tempo da natureza, criador de suas próprias regras, nunca será o tempo criado pelo homem com a esperança de tentar controlar algo tão grandioso.

A conexão consigo próprio é e está contida no passado, no presente e no futuro ao mesmo tempo.

E o tempo é uma das condições naturais que permitem a clara e honesta inserção do homem na posição a que lhe pertence dentro do conjunto que possibilita a existência da vida em todas as suas formas.

Somos apenas parte disso…

E o tempo é vivo.

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