Situação Hipotética

Imagine.

Primeira cena: você sozinha em sua casa, ultimamente distante dos afazeres domésticos, relaxada, um pouco desanimada, tendo apenas feito o essencial para a manutenção do espaço e da vida no seu lar… aparente conforto com suas sujeiras avolumadas debaixo do tapete, uns montes de roupas espalhadas em alguns cantos (que já não se tem mais controle se são limpas ou sujas), louças usadas em pontos específicos e uma cozinha meio desordenada, mas ok, não vamos avacalhar com a cozinha. Nesta cena supomos que tem pelo menos o básico para você comer e tem se virado assim. Um celular na mão combinado com uma evidente inércia. Suas roupas não são as suas preferidas, mas está em casa, sozinha… pra que se preocupar?

Agora vamos para a segunda cena: você sozinha em sua casa, a casa que você cuida todo dia um pouco. Uma coisa hoje, outra amanhã no seu ritmo. Mas é domingo, um momento que você deixa para se preocupar com a casa só no dia seguinte. Mas ela está organizada, cheirosa, tem alimento saudável preparado pra mais tarde e até uma sobremesa linda que você preparou no dia anterior. Nessa cena você está lendo um livro gostoso de ler, que fala de filosofia num romance bastante complexo e envolvente. Tem alguns livros bem interessantes (já lidos) na sua prateleira sobre diversos assuntos bem abrangentes. Tem umas plantas verdinhas e um cheiro bom no ar. Ao fundo uma bossanova tocando de levinho. Você está com uma roupa simples que te traz um sentimento bom, suas cores favoritas estão nela.

Nas duas cenas está sol, um dia lindo! Tudo ao redor permanece igual e em mesmas condições nas duas perspectivas.

De repente, aquela pessoa que você tanto esperava mas que você não tinha a menor ideia de quando ia chegar pela primeira vez te liga e diz: estou a minutos de você. E essa pessoa veio pra ficar.

Em qual dessas cenas você se sentiria mais confortável em estar agora para receber esta visita tão especial?




Eu estava no meu banho, depois de voltar da aula de dança que acontece sempre às sextas após um dia de agenda cheia no trabalho, quando meus pensamentos me levaram a estas cenas.

Faz um tempo que estou em um processo de amadurecimento e cultivo interior de forma física, emocional, psicológica e espiritual… amigos novos, hábitos nunca antes imaginados, uma caminhada constante na manutenção da autoconsciência.

Os caminhos me levam hoje a pensar na continuação da vida, agora que ela se tornou muito mais gostosa de ser vivida, pra mim. E esses pensamentos me conduzem a possibilidade de encontrar alguém para compartilharmos uma porção dos nossos universos e dar a oportunidade da vida continuar seu fluxo… e me vi tendo um olhar mais atento sobre mim e encarado honestamente o fato que ainda não é o momento. E que, mesmo não sendo o momento, não significa que eu vá desviar o meu foco do que realmente importa: o meu autocuidado.

Pela possibilidade de ter uma casa própria, agora posso me permitir o luxo de dizer: eu sou meu próprio lar.

E é nessa perspectiva que surgiu a ideia de que é preciso cuidar de si, para seu próprio benefício, seu próprio prazer em estar consigo.

Então, nesse banho cansado mas satisfeito, eis que estas duas cenas surgem como possibilidades.

Por mais que a vida não seja perfeita, impondo suas próprias regras e limites, meu pai sempre me disse que a linha do horizonte existe para que a gente se mova, não para que ela fosse alcançada.

A segunda cena é um pedacinho do ideal que me inspira a estar diariamente… e ela me parece a melhor forma de estar quando qualquer visita chegar. “Aquela” visita, mais ainda.

Acho que sair “catando” as roupas e as louças espalhadas pela casa disputando os 5 minutos com um tempo para se arrumar e se preocupar com algo para oferecer não é uma visão que me agrada e não vai adiantar tentar fugir e sair pra algum lugar. Você vai ter que voltar em algum momento para encarar o fato de que sua casa estava sendo negligenciada.

A primeira escola do amor é o amor próprio.
A primeira escola do cuidado é o autocuidado.

Não se pode permitir acreditar que o amor do outro possa ser maior que o amor que você tem quando pensa em si mesmo, quando pensa nas suas forças e fraquezas.

Amor é diferente de paixão, de atração, de interesse.
O amor não se gaba, se valoriza honestamente e com humildade.





Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s