O Desequilíbrio das Águas

Muitas vezes, na maioria das vezes, eu não sei pensar sobre o que sinto.
Ser espontânea é uma das características mais desafiadoras no sentido de que eu expresso/ me comporto de maneira inadequada por não ter ainda tido tempo de conciliar o que sinto com o que penso sobre o que sinto.
São mares e rios internos de sentimento.
Uma imensa hidrografia!
Mas eu já entendi e esse entendimento se reforça a cada momento que deixo vir à tona a emoção do encontro das águas.
Acho que nesse momento faz sentido que a emoção seja o nome dado para o conjunto de sentimentos.
Um acorde, uma emoção.
Às vezes as notas soam desarmônicas, o ouvido estranha.
É como se águas diferentes se encontrassem.
Densidade, rota, movimento/ velocidade e equilíbrio…

Quando essas águas visivelmente diferentes e aparentemente incompatíveis se encontram, eu transbordo.

Meu transbordo é agressivo, é intenso, é real, visceral…

Não tenho controle sobre o que sinto.
Na maioria das vezes consigo conter o que expresso antes que consiga entender sobre o que senti.
Conter o que expresso já expressa alguma coisa…

Medo e insegurança em comunicar a instabilidade dos sentidos.
E essa preocupação em demonstrar estabilidade, essa fortaleza da alma me aprisiona.
Enfim, tenho aprendido a caminhar fora dela.

É libertador ser uma pobre mortal que comete erros e também decepciona.
Apesar do intuito da minha vida não ser decepcionar, quero viver sem culpa das vezes que isso acontecer.
E sem culpar ninguém também.

A forma que escolho meus caminhos confunde muita gente e, às vezes, esses caminhos se assemelham a alguns que já assustaram muita gente também. É uma realidade para todo ser vivente. Isso não é habilidade de um ser especial…

As pessoas simples me fascinam.
Mas não todas…
Gosto daquelas que tem lógica simples e de coração aberto.

Quantos conselhos objetivos e certeiros vieram de quem nunca precisou entender nada da complexidade da vida.

Não sei se onde surgiu essa minha necessidade de entender o que sinto…

Quando a maioria das pessoas apenas sente sem ter muita consciência disso.

Mas… é possível ter lógica sem ter consciência do que se sente?

Será que existe alguém cujos instintos sejam tão coerentes assim?

Tenho a impressão que a razão faz de nós incoerentes…
E confio que outros animais sejam muito mais lógicos emocionalmente, instintivamente.

Ninguém é responsável pelo que sinto. Eu só sinto.
Mas sou responsável pelos meus pensamentos…
E criar uma consciência em cima disso é uma tarefa para uma vida inteira.

E chegou o momento que eu queria abandonar.
Corro o risco de ser ilógica demais até que eu consiga dar vazão a emoção a ponto de me tornar um ser mais natural.

Acho que o caminho é poder conviver mais de perto com a natureza.
E sinto que a solidão, tão importante para compreender os próprios pensamentos e que ainda é uma questão, já que assim como a liberdade, ela me parece muito incapaz de ser alcançada… o ser humano é social e vive em coletivo.
Aliás, a gente tem muito o que melhorar politicamente, essa arte em cuidar da casa onde vivem muitos.

O que pega nesse momento é que a solidão possível e o contato com a natureza me parecem uma saída para a reconexão com a natureza do sentir.

E aceitar que chorar seja uma das minha reações mais espontàneas.
Por ser, de fato, um dos comportamentos que tenho menos controle.

Já consigo perceber que choro quando essas águas se chocam dentro de mim.
Agora aprecio a naturalidade com que sinto.
E percebo o quanto resisto e tento trazer a emoção para o pensamento… enquanto tudo o que eu posso fazer é chorar, sentir e deixar passar.

O porém é que diante de alguém eu sinto a necessidade de ter que explicar meu choro.
Chorar assusta as pessoas.
Acabo me sentindo na obrigação de acalmá-las, de me justificar e dizer que tá tudo bem, que eu choro porque sinto, mas que isso não é um problema.

Não choro simplesmente porque dói.
Choro porque sinto diversos sentimentos que se agitam muito quando se encontram.
Um choro meu emocionado contém contradições… contradições naturais e comuns.

Vivo na utopia do equilíbrio das águas… da serenidade constante quando, na verdade, constante mesmo é o movimento.

Afinal, eu não choro a todo momento.
Mas quando choro perto de alguém, isso se torna um evento…

Sou só humana.
Também choro.

E choro mesmo.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s